Do Romance, Um Adeus Regular

Há minutos que estou encostado a um candeeiro e o sol vai brincando comigo. Fumava para o
céu, focando o exercício de ascensão do fumo, nas mãos do vento. Estive de mãos dadas muito
tempo, memorizando a liberdade como o caracol de Nuremberga me ensinara.
Esquecer ou sentir? Que me dizes?
Mais à frente um ser, dei-lhe o cigarro e olhei em volta procurando diversão.
Isabel teve mais um dos seus dias, hoje a braços com a Primavera. O cuidado de Isabel quando
lia EU e TU nas matrículas dos carros. Talvez os carros sirvam para isso mesmo para nos
iniciarmos. Houve conversas conseguidas, houve realmente algo, o facto é que a modernidade
nos quis como circunstância.
Emília, a minha avó ou ‘Mãe’, como a tratávamos, estava algures numa cama em Lisboa. Os
seus andavam na demanda própria de um Domingo.
Madruguei por ela, em busca da sua humildade.
– Tens de te arrumar! Dizia-me sempre enquanto ajeitava o cabelo num jeito de menina que
nunca se perde.
– Sabes que homem de boné fraco homem é! E as piadas continuavam a par do tempo, como eu
quando tomo café e as dores passam. Um dia, pergunto-lhe o que achava de um rapaz seu
vizinho, sentado junto à sua porta e ela diz-me que ele se senta ali muitas vezes porque não
pode com o peso da própria cabeça. Ficava cativado com ela.
Disse à minha Isabel, que se me quisesse conhecer, que me escutasse o coração à porta do meu
prédio.
Não sabia como enquadrar o Inverno, no quadro que a minha casa mãe me prestava como
homenagem. Estavam duas guitarras ao lado do quarto escuro para onde o assédio era
estandarte. Mas eu era lhe visível demais e nesse caso preocupava-me em saber entrar em
saber sair. Dois dias mais que o mundo eram luz e som colados à superfície. Daí para fora tudo
era uma diferença a conceber em dose certa. Era este o equilíbrio a que mais me prestava. E
vistas as coisas trauteava da rua para que percebessem que não era um estranho e assim era
mais fácil. Mas lembrar à distância todo este processo custava um pouco agora que tinha uma
vida.
Dois seres em qualquer situação são absolutos, mesmo que nada sejam. Estar só, estar
absoluto, tudo, nada, como um seio que nunca foi visto.
A velocidade como a sombra detém uma sensação semelhante à da História (uma vez vista a
beleza jamais é esquecida). E o que se movimenta mais é o nervo. E o entusiasmo de querer
viver à frente é isso mesmo e a sua inconstância tão anual como cíclica vai dependendo porque
é outra.
Isabel percebia-me e as suas deixas eram como um bálsamo que atenua o adeus. Tínhamos o
hábito de passear por Alfama, nas vésperas das marchas de Lisboa, cúmplices aos segredos das
vitórias deste bairro no evento de Junho. Vimos uma catraia a comer um gelado enquanto
pedia “um tostãozinho para o Santo António!”. Isabel reparou que ela provocava os
transeuntes com um vestido demasiado curto para a sua inocência. E comíamos cerejas e
deixávamo-nos aos sons e rostos da cidade. Revíamo-nos assim e era mais fácil completar a
nossa verdade. A minha impressão nestas tardes, detinham a sensação oposta de eternidade
no seu clamor intuitivo e a revelação no momento em que giravam coisas sobre nós, em volta
real. Hipnotizados pela vida, como quando amanhecíamos juntos.
Os laços soltavam-se em melancolia como um museu diante da tarde. A nossa força era como
uma onda em riste, contida e sem fim. O nosso leme tinha uma direcção, daí que soubéssemos
sempre quem éramos. Sabíamos todos os caminhos, nunca nos perdíamos, talvez porque
procurássemos muito.
Acordo para Emília, diz-me que vai até à janela ver pessoas, diz-me sempre que parecem mais
pequenas vistas dali.
– Talvez o português seja assim, mas olhe, vou escrever à minha pequena, quero contar-lhe o
sonho que tive.
Comecei a escrever, enquanto Emília preparava o almoço.
Isabel,
Tenho um orgulho de silvo rolante na candura que abrupta memoriza todas as linhas todas as
mãos. Os olhos tatuam-se e é se facilmente livre. Daí que aprecie camaleões ao sol. A cor sem o
nevoeiro a que imergimos preenche todas as estrelas por diversão que a ânsia é então lacuna
maldita. Esta missiva é redentora quando somos um orgasmo expansivo à saudade e somos
eternos quando a carne metaliza em pranto mel as rédeas de coragem.
Entretanto eu e Emília tomámos a refeição, contava-me ela que o seu outro, o meu avô Emílio,
tinha o hábito de comer maçãs e beber bagaço no fim da refeição. Eu falei-lhe de um rapaz que
me perguntara o que era poesia. Poesia? Coisas bonitas feitas por palavras.
Terminámos a refeição e eu fui continuar a minha carta a Isabel.
Ontem sonhei com um dia anunciado por arroz e feijão frade, dentro de uma floresta verde.
Estava a conhecer pela primeira vez a consciência da lucidez e eram cartuchos coloridos que
davam início aos reflexos (a caça). Assim descobri uma nova constelação.
Teu
Assim que terminei a carta lembrei-me do dia em que nos encontrámos pela primeira vez.
Combináramos na Brasileira. Subi a custo as ruas do Carmo e Garret, porque faltava um minuto
para a hora. Ainda não tinha chegado e resolvo sentar-me ao lado de Pessoa. Eis que volvidos
alguns minutos, ela chega, deslumbrante de vestido negro comprido e o seu ar etéreo.
Pergunta-me se eu podia estar ali.
– Sabes os poetas gostam de estar próximos! Como eu e tu , pensei. Seria? Bebemos um chá e
falámos durante duas horas. Lá fora a chuva apareceu e Isabel na urgência das horas abre o
chapéu e entrámos nas ruas com a estética própria do primeiro encontro. As cartas abriram
caminho para o resto.
Achava eu que janelas abertas, eram uma devolução física como dois lábios juntos. Isabel não
sabia que eu era tão interior e quando assobiava na sua rua e abria as janelas para me ouvir,
começou a desconfiar.
Aprendeu comigo a assobiar até que selámos os lábios e centenas de histórias depois fazíamolo
com frequência. Houve uma com piada, tínhamos feito amor numa cabine telefónica, quando
toda a gente fugia da chuva, nós deixámo-nos entregues ao prazer. Outra houve, mas mais
sofrida, três sujeitos encostam-me três facas no corpo. Lá se vai o meu relógio de bolso… ,
pensei. Mas não, viram um pacote de mortalhas na minha carteira e despediram-se
formalmente sem levar nada. Foi preciso ir à Galiza, cair num rio para ficar sem o relógio. Esta
história nunca seduzira Isabel. Tinha tido uma premonição negativa desta viagem ao passado
de outros rostos. Em Abril de 1997, chego a ‘Fonsagrada’ uma pequena vila no coração da
Galiza ao fim da tarde. Não havia mais transportes para o meu destino esse dia. Tentei esperar
o amanhecer, mas o frio e um predador que me acordou, pôs-me a caminho de mochila às
costas e de lanterna na mão para andar cerca de 5 horas na noite galega, até chegar a ‘Boelle’,
onde estava a minha amiga anarquista.
Queria eu saber tudo sobre a história do grupo anarquista onde tinha estado antes. Mas a
minha ânsia deu-se mal, talvez por ter fumado marijuana a mais ou por falhas de comunicação,
afinal falava-se galego, alemão, inglês, português. Mas a excelente produção de pensamentos,
o veado que vi, a paisagem soberba, o sorriso à minha t-shirt que dizia ‘punk inside’,
conceberam uma satisfação única. Despedi-me de Anya com amargura porque gostava dela. E
fiquei sem saber da totalidade da história do grupo.
Isabel disse-me para correr até não poder mais, para que a minha curiosidade se perca, mas eu
tinha muito para fazer correr e só sabendo eu descansava.
A primeira massagem em Isabel sossegou-nos porque eu tinha o cuidado de dar prazer e fazer
soltar as energias com o risco da cautela e dos nossos. E fluiu uma voz quente para o seu ouvido
e em relax próximo do sono, vigiei os seus movimentos calmos no meu colchão.
E o sonho era isto. Uma noite onde as imagens se igualam ao vento, vibrando e os moinhos
fazem justiça. Um tempo conseguido.
Já sabia esquecer e sentir, antes e depois.
Pareceu-me muito depois.
Cheguei-me à noite escura, deixando os passos sobre si, manuseando a contemplação,
fumando. O azul que paira e ergue o desejo, um azul que visto do rio se unia à estética da
rapariga que há semanas esboço sorrisos. Não fora eu ao Tejo para outra coisa: tatuar as duas
cores a ela e subi depois de breve cigarro rumo à colina de mais movimento a essa hora.
Na verdade estou em casa de perna traçada a pensar em quem pensa e sorri. Procuro um ‘déjavu’,
para retomar uma história esquecida e no meu joelho uma sensação de medo. Que
escrevendo sem pensar muito, pode esmorecer a esperança. Talvez que ao procurar histórias e
sobre essa tarefa com a mente accionada me deixe sobre a ilustração da noite. Porque a
audição me trai, eu acarinho o medo no sonho. Estou só, mas observo as distâncias,
subvertendo o sentido moral nas distracções por uma mulher comum. No fundo a linguagem
universal é a ordenação do caos. Da experiência e da reflexão, sinto-o e como partem os sonhos
e os corpos e as almas, no pensamento permaneço, sustendo-me. Pensar a história dos meus
vizinhos deste planeta todos os dias, sem verter uma lágrima é perigoso, pois esta é ácida,
corrói. Dor de alma que a cidade consagra, cantaria o cisne tão digno na aparência, no entanto
a promessa é ceifada vezes sem conta. O que sentirá a lágrima? E o canto e os vizinhos? Os
livros que tenho não mo dizem, nem alguém. Escrevo e circulo, fugindo o relógio para a frente.
Calculo que ao passar do tempo, não fico. Então onde estou? A verdade duvida da memória, a
lucidez das horas, a alma do corpo…
Mesmo em frente de tudo, planeando o futuro da vida, aceno até ao fim. Assim a vejo, assim
traduzo saudade.
A cítara intui histórias esquecidas e os dedos podiam só tocar no corpo, deixando a alma
entregue à sua verdade. O mar não tem pele, mas escreve na areia. Se soubéssemos escrever
como o mar…
O modo de unir uma ilusão difere no reconhecimento, sendo o deserto a verdade de um povo.
O povo aprova-se quando desenha no ventre o esboço de que é feito. Por ventura os rostos
espelham a ruptura com os fenómenos do passado. Intranquila a herança, de tractos e actos
que concebem a seu ver o rascunho oral da efemeridade de um ser colectivo no seu momento
de vida. A transmissão é contínua.